*.¸¸.* cantinho da rosamar *.¸¸.* sinta-se em casa *.¸¸.*

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6 de Jul de 2007

O SONO DO TIAGO


O SONO DO TIAGO

O Tiago dorme... (Ó Maria,
Diz àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o Tiago acordar...)

Tem só um palmo de altura
E nem meio de largura:
Para o amigo orangotango
O Tiago seria... um morango!
Podia engoli-lo um leão
Quando nasce! As pombas são
Um poucochinho maiores...
Mas os astros são menores!

O Tiago dorme... Que regalo!
Deixá-lo dormir, deixá-lo!
Calai-vos, águas do moinho!
Ó Mar! fala mais baixinho...
E tu, Mãe! e tu, Maria!
Pede àquele cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o Tiago acordar...

O Tiago dorme, o Inocente!
Dorme, dorme eternamente,
Teu calmo sono profundo!
Não acordes para o Mundo,
Pode levar-te a maré:
Tu mal sabes o que isto é...

Ó Mãe! canta-lhe a canção,
Os versos do teu Irmão:
"Na vida que a Dor povoa,
Há só uma coisa boa,
Que é dormir, dormir, dormir...
Tudo vai sem se sentir."

Deixa-o dormir, até ser
Um velhinho... até morrer!

E tu vê-lo-ás crescendo
A teu lado (estou-o vendo
Tiago! que rapaz tão lindo!)
Mas sempre sempre dormindo...

Depois, um dia virá
Que (dormindo) passará
do berço, onde agora dorme,
Para outro, grande, enorme:
E as pombas que eram maiores
Que Tiago... ficarão menores!

Mas para isso, ó Maria!
Diz àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o Tiago acordar...

E os anos irão passando.

Depois, já velhinho, quando
(Serás velhinha também)
Perder a cor que, hoje, tem,
Perder as cores vermelhas
E for cheinho de engelhas,
Morrerá sem o sentir,
Isto é, deixa de dormir:
Acorda e regressa ao seio
De Deus, que é d'onde ele veio...

Mas para isso, ó Maria!
Pede àquela cotovia
Que fale mais devagar:

Não vá o Tiago acordar...

adaptado de O SONO DO JOÃO
António Nobre
(De: "Só")


A MAEZINHA


A MAEZINHA

A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.

Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem misséis.
Corria
branda a noite e a vida era serena.
Segundo informação, concreta e exacta,

dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023
mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra
idade
à que vai do berço até à puberdade.
28 por cento das restantes

eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que
nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do
extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de fiilhos…
(De resto,
as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser
consideradas
nestas considerações.)

Das outras, 10 por cento,

eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que por
temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se
inclinavam para o casamento.

Além destas meninas
havia, salvo erro,
32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás
das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.

Dessas
havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro
além, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,

tranquilamente no maio sossego, às horas em
que entrava e saía do
emprego.
Dessas 9 excelentes raprigas
uma fugiu com o criado da lavoura;

5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,

teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;

outra suicidou-se
não se sabe porquê.

A que sobeja
chama-se
Rosinha.
Foi essa que o meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.
(Romulo Vasco da Gama de Carvalho)








27 de Jun de 2007

26 de Jun de 2007

pedra filosofal


Pedra Filosofal
" Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança."

(António Gedeão - poemas)

16 de Jun de 2007